quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

 
"Ai que linda troca d'olhos..."
 
 
 
Ai que linda troca d'olhos
fizeram agora ali
trocaram-se uns olhos pretos
por uns azuis, que'eu bem vi"
(cancioneiro popular)


Foi negócio a céu aberto,
lá na feira de Mesão,
o vendedor, bem decerto,
tem à freguesa afeição...

Pois não houve regateio,
foi um dá-cá e toma-lá,
e o troco, neste enleio,
só no coração se dá.

Que lindos, os olhos qu'ela
deu à troca, pelos dele,
eu sei qu'outra clientela
por eles dava um anel!

Negros, feitos do mistério
onde o amor s'aconchega,
de moçoila em porte sério,
mas qu'a folia num nega...

Que lindos, os olhos qu'ele,
lh'ofer'ceu apaixonado,
safiras para o anel
prometido pró noivado.

Azuis, onde guarda o mar
que trouxe um dia do Porto
pra um dia o poder dar
a quem lhe desse conforto.

Ai que linda troca d'olhos
fizeram agora ali,
só falta bordar os folhos
do vestido d'organdi!



sábado, 9 de fevereiro de 2013




(Serra do Marão - foto da autora)

no alto daquela serra




...não te sei dizer do friso frio das montanhas,
porque nunca conheci os contornos da areia quente

não te sei dizer da música musa do silêncio,
porque nunca ouvi o estridente grito das sirenes

e não te sei dizer dos risos dos rios nascentes,
porque nunca vi chorar uma criança triste...

só sei das comparações,
porque me disseste:


"-és tão pura como a brisa que nomeia as flores,
tão maternal e precisa
como a Natureza e os seus favores".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013




TANTUM ERGO



As vozes erguiam os joelhos das pedras e subiam aos céus, num coro cândido, que a abóbada da igreja filtrava, numa estranha e mística sonoridade. Era a hora do Tantum Ergo:

 “Praestet fides supplementum sensuum defectui…”,

que à luz da rústica realidade  se poderia traduzir assim:

“Sirva a fé de suplemento à fraqueza de instrumentos”

– musicais e de ensaio técnico, porque as vozes, essas, pareciam já nascer nascidas, espontaneamente se dividiam em tenores, baixos, sopranos e contraltos e se harmonizavam “a capella”.

Pareceria que um maestro invisível as comandava com precisão atenta e dinâmico incentivo. Homens e mulheres se revezavam, entoando os versos, elevando-os acima dos seus simples e mal pronunciados dizeres de latim, acima da vernaculidade, acima do orgulho de talentos vocais, ou da timidez por falta deles.

Era um momento único, um momento de forte espiritualidade e de união. O pequeno templo parecia ascender, numa névoa de incenso, a um Céu infinitamente grande dentro de nós. De mim.

Eu era pequena e tudo me parecia grande nessa época – a igreja, a minha aldeia, o Céu. Tão grande, que, sentir-me dentro dele, nos instantes que durava o cântico do “Tantum ergo”, era recear  perder-me nele…

Mas não. O que perdi, o que perdemos todos, foi o próprio Céu. Talvez a culpa seja dos tempos, das igrejas que se tornam cada vez mais pequenas, às vezes até invisíveis, das vozes que se calaram, dos órgãos electrónicos, dos coros com ensaio marcado, do silêncio das vaidades ou do barulho da Vida… ou, simplesmente, do nosso próprio crescimento, da nossa própria perda de inocência…

Ah, que saudades do “Tantum ergo” que (ainda) se canta na minha terra!

sábado, 19 de janeiro de 2013


(foto da autora: miradouro de S. Leonardo de Galafura)

POEMA A DOIS ESCRITO, POEMA A OURO LAVRADO
(diálogos da Terra e do Rio)

Te contemplo com o olhar de Menina-Mulher
Adivinho o coração aroma-de-mel
E a água cristalina do teu ventre, genuíno Ser
Douro és mais que poema, és anel!

Reflito-te,  em adoração de Homem-Menino,
E do fundo dos meus olhos cor-de-ouro
Sorrio-te, como infante pequenino,
Que no teu colo vem guardar o seu tesouro.

Suavemente, enfeito-te ao meu gosto
Dos lábios sumarentos provo o beijo
Cachos de uva são o saboroso mosto
Enternecendo o calor do nosso ensejo!

Ternamente te enlaço, Terra amada,
Como jóia que mereces por direito
E no estio, nossa boda é festejada
Pelas vinhas que tu bordaste a preceito…

Oh! Douro-Poema, Homem-Menino
Que estranha vontade esta de te tocar!
Porque serás sempre o melhor destino?
E o único a quem tenho amor p’ra dar?

Oh, Poema-Douro, Menina-Mulher,
Que prazer eu tenho em te adornar!
Para te ver, quando o Inverno vier,
Despir,  e no meu leito aconchegar!


Oh! Douro-Poema, Homem-Menino
Se soubesses quanta vida me dás!
Em ti, nenhum sonho é pequenino
Minha alma jamais olha p’ra trás!

Oh, Douro-Poema, Mulher-Menina,
Quanto da minha história se faz a tua!
Ao Mundo, a Natureza aqui ensina
Que a beleza o trabalho apazigua!!

15.01.13

Numa linda e gratificante parceria poética com Jessica Neves 

(http://sempapelecanetacomalmaecoracao.blogspot.pt/)
cantando ao desafio o namoro da Terra-Douro e do Douro-Rio.
Obrigada, Jessica, orgulho-me de ter-te comigo!

sábado, 8 de dezembro de 2012


Bagas D'ouro


O sol de Outono brinca nos bosques,
salta os muros de granito,
cintila nas brenhas como em vidrilhos
incrustados num vestido bonito
e  adoça-me os olhos de cores silvestres:
medronhos, groselhas, mirtilos
-
bagas e beijos, Douro, que me ofereces.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Até (a)o lavar dos cestos(,) é vindima...


Ainda o mês é Setembro
A pender para o Outubro,
Ainda o tempo diz tudo
E decide o maturar
Das uvas que sempre lembro
Moerem-se para o lagar.

O relevo, ainda moço,
Curva o dorso derreado
Com as uvas que, por fado,
São sangue do nosso vinho,

Da nossa carne, pão nosso,
Que se reparte ao vizinho...

Ainda as cores são de sempre,
Extraídas a um Outono
A esvair-se em abono
No milagre já cumprido,
Ciclo que promete ao ventre
O repouso merecido.

'Inda tudo é tão igual,
E porém tão diferente,
Não é como antigamente
Quando em alegres fileiras
Se assobiava o sinal
De carregar as canseiras.

Às costas de homens nobres,
Fartos cestos escorriam
Mosto e suor que sabiam
O real valor do ouro:
Nunca a vida chamou pobres
Aos cultores do Alto Douro!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


Douro, maduro Douro


Os contornos das vinhas adoçam-me
a geometria do olhar:

não sei se da prenhez das uvas,
se da pujança dos bagos,
se da promessa dos vinhos,

a luz que me cobre o Douro
descobre-me a atravessar
o calvário do tempo maduro

que os contornos das vinhas adoçam
na liquidez do olhar.