D'OURO LÍQUIDO
D'ouro líquido é o sangue que me corre
Nas veias desta terra minha carne,
Fino vinho que maturo no meu cerne
Com o amor que, de fértil, nunca morre.
D'ouro líquido é o laço que nos une
Numa prece erguida ao alto, em são labor,
E o cálice consagrado em altar-mor
É of'renda que ao mundo nos reúne.
Rio Douro é o espelho desta alma,
Que se veste, ano após ano, de luxúria
Na ânsia de celebrar fausta vindima.
Terra Douro é a paisagem que me acalma,
Mesmo quando regresso da minha fúria
De domar-te, árdua lida, encosta acima...
terça-feira, 21 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Se bem te lembro, Setembro...
Se bem me lembro, Setembro,
era à sombra dos teus dias
que colhia o mosto quente,
sangue de paixões de verão.
E o sol com que me olhavas,
se bem te lembro, Setembro,
era feito de saudades
colhidas em bagos doces...
Chovia, às vezes, e o beijo
que me davas, de tão húmido,
se bem me lembro, Setembro,
sagrava o vinho nas mãos.
No respigo que ficava,
ficava um tempo a passar
passas de um amor cumprido,
se bem te lembro, Setembro...
Se bem me lembro, Setembro,
era à sombra dos teus dias
que colhia o mosto quente,
sangue de paixões de verão.
E o sol com que me olhavas,
se bem te lembro, Setembro,
era feito de saudades
colhidas em bagos doces...
Chovia, às vezes, e o beijo
que me davas, de tão húmido,
se bem me lembro, Setembro,
sagrava o vinho nas mãos.
No respigo que ficava,
ficava um tempo a passar
passas de um amor cumprido,
se bem te lembro, Setembro...
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
SAIA DE CHITA
Comprei chita da melhor,
Duas alturas de metro
(Que a saia quer-se ao redor)
E costurei-a a preceito...
Era alegria em tecido,
A chita em mil tons campestres,
Como campo colorido
Plantado de flores silvestres.
Talhei-a em linhas singelas
Numa saiinha modesta,
Pra condizer co'as chinelas
A estrear pela festa.
Cosi-a com perfeição
E primor bem afinado,
Pois me diz o coração
Que vou achar namorado...
Ficou um perfume a flores
Na velha máquina Singer,
Foi das que cortei em dores
E que de mil cores me tingem.
Mas as que sobrarem, ah!,
Vou dá-las num laçarote
A um certo moço de cá
Em ronda do meu saiote!...
Comprei chita da melhor,
Duas alturas de metro
(Que a saia quer-se ao redor)
E costurei-a a preceito...
Era alegria em tecido,
A chita em mil tons campestres,
Como campo colorido
Plantado de flores silvestres.
Talhei-a em linhas singelas
Numa saiinha modesta,
Pra condizer co'as chinelas
A estrear pela festa.
Cosi-a com perfeição
E primor bem afinado,
Pois me diz o coração
Que vou achar namorado...
Ficou um perfume a flores
Na velha máquina Singer,
Foi das que cortei em dores
E que de mil cores me tingem.
Mas as que sobrarem, ah!,
Vou dá-las num laçarote
A um certo moço de cá
Em ronda do meu saiote!...
quinta-feira, 8 de julho de 2010
MDCCXCVII
(Casa de infância)
Sou sempre da minha casa,
a casa que ainda sabe
o cheiro com que nasci.
Sou ainda flor de berma,
protegida pelas pedras
seguras e venerandas,
da rua onde passa o frio
do Marão.
Sou ainda inocência,
guardando o branco caiado
da casa da minha infância
num altar:
e ainda hoje ergo os olhos,
quando subo a calçada,
para as janelas rasgadas,
para as ombreiras cansadas
da porta rendida ao tempo,
que me concede a entrada
em tapete de granito
e saudades de outros tempos
em que o amor era lá dentro,
e lá dentro... era o mundo!
Fui duma casa tão grande,
aos meus olhos de menina!
Mas cresci e trago agora,
pra dentro da minha casa,
tanta coisa nos meus olhos,
que me parece pequena,
vista por dentro de mim,
a casa da minha infância!
Mas por fora...
ainda agora,
o tempo passa em respeito
de solene procissão
e se curva à dignidade
da singela inscrição
sobre a porta da entrada:
MDCCXCVII.
"Minha casa, tão velhinha,
É de pedras tão singelas!
Lembro que inda pequenina,
Já sonhava à guarda delas..."
É de pedras tão singelas!
Lembro que inda pequenina,
Já sonhava à guarda delas..."
sábado, 3 de julho de 2010
Voltar...
lembra-me as cores das manhãs
em festejos musicados
pelas alegrias sãs
dos pássaros já em alerta
e p'los sinos embalados
de avé-marias despertas.
lembra-me o cheiro da terra
ao calor do meio dia
e o ecoar lá na serra
dum chamado às redondezas,
avisando que a Maria
já tem o comer na mesa.
lembra-me a brisa que vinha
do Marão à minha rua,
saltando rios e vinhas,
para acalmar os suores
d'estafas de sol a lua
em beijos reparadores.
lembra-me ouros de sol-pôr,
no Douro a derreter-se,
a jusante de um amor
amealhado às trindades
num recolher de uma prece,
pelo anoitecer das tardes.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
CANTAR-TE-EI, DOURO
Cantar-te-ei, Douro,
enquanto minha terra,
cantar-te-ei, rio,
enquanto Douro em fio
no colo da serra
que é meu nascedouro!
Cantar-te-ei sempre,
enquanto não me doa
o olhar de ver-te
e o ousar d'escrever-te
sentida e sã loa
de quem conhece o ventre
que o nascer lhe sente
e cresce no caminho
onde se entreteve,
em embriaguez breve
de sulcos de vinho,
cantar-te-ei sempre!
Cantar-te-ei, Douro,
enquanto te trouxer
a bater no peito,
e os olhos não deito,
náufragos e sem ver,
ao meu morredouro...
Cantar-te-ei, Douro,
enquanto minha terra,
cantar-te-ei, rio,
enquanto Douro em fio
no colo da serra
que é meu nascedouro!
Cantar-te-ei sempre,
enquanto não me doa
o olhar de ver-te
e o ousar d'escrever-te
sentida e sã loa
de quem conhece o ventre
que o nascer lhe sente
e cresce no caminho
onde se entreteve,
em embriaguez breve
de sulcos de vinho,
cantar-te-ei sempre!
Cantar-te-ei, Douro,
enquanto te trouxer
a bater no peito,
e os olhos não deito,
náufragos e sem ver,
ao meu morredouro...
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