segunda-feira, 16 de agosto de 2010

ARRAIAL DO RIO


Guardei estrelas cadentes
da chuva que o céu me deu,
certa noite aqui há dias

Ontem pus-me a brincar com elas,
atirando-as às mãos cheias
nas águas do rio Douro

Por cada uma, um desejo
e o sonho sempre criança
de que o rio fique d'ouro...

...para lá da meia noite.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

SAIA DE CHITA


Comprei chita da melhor,
Duas alturas de metro
(Que a saia quer-se ao redor)
E costurei-a a preceito...

Era alegria em tecido,
A chita em mil tons campestres,
Como campo colorido
Plantado de flores silvestres.

Talhei-a em linhas singelas
Numa saiinha modesta,
Pra condizer co'as chinelas
A estrear pela festa.

Cosi-a com perfeição
E primor bem afinado,
Pois me diz o coração
Que vou achar namorado...

Ficou um perfume a flores
Na velha máquina Singer,
Foi das que cortei em dores
E que de mil cores me tingem.

Mas as que sobrarem, ah!,
Vou dá-las num laçarote
A um certo moço de cá
Em ronda do meu saiote!...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

MDCCXCVII




(Casa de infância)

Sou sempre da minha casa,
a casa que ainda sabe
o cheiro com que nasci.
Sou ainda flor de berma,
protegida pelas pedras
seguras e venerandas,
da rua onde passa o frio
do Marão.
Sou ainda inocência,
guardando o branco caiado
da casa da minha infância
num altar:
e ainda hoje ergo os olhos,
quando subo a calçada,
para as janelas rasgadas,
para as ombreiras cansadas
da porta rendida ao tempo,
que me concede a entrada
em tapete de granito
e saudades de outros tempos
em que o amor era lá dentro,
e lá dentro... era o mundo!
Fui duma casa tão grande,
aos meus olhos de menina!
Mas cresci e trago agora,
pra dentro da minha casa,
tanta coisa nos meus olhos,
que me parece pequena,
vista por dentro de mim,
a casa da minha infância!
Mas por fora...
ainda agora,
o tempo passa em respeito
de solene procissão
e se curva à dignidade
da singela inscrição
sobre a porta da entrada:
MDCCXCVII.

"Minha casa, tão velhinha,
É de pedras tão singelas!
Lembro que inda pequenina,
Já sonhava à guarda delas..."

sábado, 3 de julho de 2010

(o olhar da minha terra - Figueira)

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lembra-me as cores das manhãs
em festejos musicados
pelas alegrias sãs
dos pássaros já em alerta
e p'los sinos embalados
de avé-marias despertas.

lembra-me o cheiro da terra
ao calor do meio dia
e o ecoar lá na serra
dum chamado às redondezas,
avisando que a Maria
já tem o comer na mesa.

lembra-me a brisa que vinha
do Marão à minha rua,
saltando rios e vinhas,
para acalmar os suores
d'estafas de sol a lua
em beijos reparadores.

lembra-me ouros de sol-pôr,
no Douro a derreter-se,
a jusante de um amor
amealhado às trindades
num recolher de uma prece,
pelo anoitecer das tardes.



quarta-feira, 9 de junho de 2010


CANTAR-TE-EI, DOURO


Cantar-te-ei, Douro,
enquanto minha terra,
cantar-te-ei, rio,
enquanto Douro em fio
no colo da serra
que é meu nascedouro!

Cantar-te-ei sempre,
enquanto não me doa
o olhar de ver-te
e o ousar d'escrever-te
sentida e sã loa
de quem conhece o ventre
que o nascer lhe sente
e cresce no caminho
onde se entreteve,
em embriaguez breve
de sulcos de vinho,
cantar-te-ei sempre!

Cantar-te-ei, Douro,
enquanto te trouxer
a bater no peito,
e os olhos não deito,
náufragos e sem ver,
ao meu morredouro...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

MENINA-DOS-OLHOS


Os meus olhos são de cor indefinida.
Um pouco de sol, com um pouco de sal,
Um toque de azul, em tinta dilúida,
Outro tanto em esperança, de verde noval.

Os meus olhos são os espelhos da terra,
Têm da cor, tudo o que o encanto alcança,
E o brilho todo que coroa a serra,
Quando o sol do dia, à tarde, já se cansa...

Os meus olhos são dois godés pequeninos
Onde misturo as tintas que se derramam
Nas paisagens onde se semeiam vinhos,
E no meu rio, onde terra e céu se amam.

Os meus olhos são de cor indefinida,
Fiel mescla de amenos semitons,
Paleta cromática, d' ouro tingida,
Onde rio e terra confundem os dons...
ARA-DOURO


Quem sabe a água que o meu rio-chora
Em vapores evolados e invisíveis?
Quem sabe quantas lágrimas tangíveis
Se libertam da terra amor-talhada
E condensam nos rostos que a laboram?...

Sei lá se o meu olhar inda erra-belo,
Sei lá se neste porto o ouro ancora,
Só sei que amor assim é sempre e agora,
Qu'esta terra já de si deu a mó-nada,
O grão, o sustento, e da pele, o velo...

Quem sabe até quando me é abriga-douro
O berço que me ornaram de veludo,
Onde cresço, sem espada e sem escudo,
Onde morro, a cada nova enxada-da
Escrita que lavro como tesouro...

E enterro, na eterna fé do D'ouro....